Em meio à pandemia, uso de moedas sociais cresce 60% no Ceará

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Somente no 1º semestre, economia alternativa movimentou R$ 8,2 milhões em comunidades cearenses. Facilidade para concessão do microcrédito e de auxílio emergencial dão suporte à população mais vulnerável

Legenda: Primeira no País a fazer a migração para a plataforma digital, a Palma é disponibilizada no app E-dinheiro
Foto: Natinho Rodrigues

Apenas em compras no comércio local, as moedas fizeram circular R$ 4,7 milhões no Estado no primeiro semestre, quatro vezes mais que em igual período do ano passado, quando foi movimentado R$ 1,1 milhão. Já em pagamento de boletos bancários, o valor caiu de R$ 3,98 milhões nos seis primeiros meses de 2019 para R$ 3,54 milhões neste ano, resultado que reflete a impossibilidade de ir às agências pagar contas nos momentos mais rígidos de isolamento.

Enquanto os bancos tradicionais exigem garantias como renda, patrimônio e fiador para conceder crédito, que são inacessíveis à parcela mais suscetível da população, os comunitários fazem pequenos financiamentos com base na confiança e, com o uso da moeda social, na garantia de que o recurso será utilizado para compra ou pagamento de estabelecimentos dentro da comunidade.

“Nós apostamos na concessão de um crédito totalmente desburocratizado, com poucas informações do requerente. É um valor pequeno para dar suporte ao microempreendedor, aquela padaria pequena, é um salão de beleza que funciona em casa”, aponta Nayara Sousa, coordenadora de crédito do Banco Palmas, a primeira instituição do tipo no País, criada em 1998 no Conjunto Palmeiras.

O microcrédito adotado pela instituição é resultado de uma parceria com o Governo do Estado, que decorreu ainda na criação um programa próprio de auxílio emergencial de R$ 200, semelhante ao do Governo Federal, direcionado aos moradores da área de atuação dos bancos. De acordo com a Rede Brasileira de Bancos Comunitários (RBBC), o financiamento do programa de crédito é arrecadado pelo projeto de impacto social Somos Um.

Com valor de financiamento médio de R$ 400, os documentos exigidos para a concessão do empréstimo variam se o beneficiário for pessoa física ou Microempreendedor Individual (MEI), como explica Nayara Sousa.

“Para pessoa física, os documentos são: RG, CPF e comprovante de residência. Também é solicitado comprovação renda (que pode ser um comprovante de benefício), mas o último item não é decisivo para negar o crédito. No caso do MEI, apenas o número de inscrição já é suficiente”, explica a coordenadora.

Já o programa de auxílio emergencial foi outra estratégia para dar condições de que pessoas mais vulneráveis tivessem um valor mínimo para se manter. “A escolha dos beneficiários é feita através da indicação de líderes comunitários, que mais conhecem a população. Depois disso, o pagamento é realizado por meio do aplicativo ou do número de telefone e CPF”, explica Nayara.

Recursos

A facilidade para tomar crédito fez toda a diferença para Jaqueline Buriti, dona de uma esmalteria no bairro Conjunto Palmeiras. “Eu fui até o banco, só com o número do meu MEI e consegui, foi muito fácil. Foi disponibilizado o limite de R$ 300, mas disseram que poderia aumentar com o tempo, depois escolhi o dia do pagamento e posso usar em vários comércios aqui do bairro”, explica.

O dinheiro foi fundamental para que Jaqueline garantisse a alimentação da família no período de pandemia, enquanto o auxílio emergencial fornecido pelo Governo Federal ainda não estava sendo disponibilizado aos beneficiários.

“Com o crédito, eu consigo fazer compras em, pelo menos, uns cinco mercados aqui por perto, no meu bairro e só preciso pagar um mês depois”, pontua.

Comércios credenciados

De acordo com dados da RBBC, o número de comércios credenciados à rede de bancos comunitários mais que dobrou de março, quando teve início a pandemia no Estado, a junho, passando de 240 para 510 estabelecimentos distribuídos em 40 periferias de Fortaleza. Isso teria acontecido, principalmente, pela alta demanda por crédito, segundo avalia Joaquim Melo, presidente da RBBC.

“Nós incentivamos que os donos de comércios se credenciem para que os moradores possam comprar de quem está perto, para não ter que ir até outro bairro, gastar com condução e o dinheiro sair da comunidade”, aponta.

Primeira no País a fazer a migração para a plataforma digital, em 2015, a moeda Palmas – assim como outras existentes no Estado – é disponibilizada aos beneficiários por meio do aplicativo E-dinheiro. O usuário baixa gratuitamente o app, se cadastra na plataforma e deposita no banco comunitário de sua preferência, que é convertido em seguida em um saldo eletrônico.

“A ideia é manter o dinheiro na comunidade. Assim, podemos ajudar as pessoas que precisam se alimentar, pagar contas e comprar remédio, tudo na região. E ajudar os pequenos empresários, que sentiram muito o impacto dessa pandemia”, explica Melo.

Nayara acrescenta que não é necessário ter um telefone com acesso a internet ou a aplicativos. “Quando a pessoa não tem um smartphone, enviamos as informações por SMS e o usuário pode, apenas com o número do telefone e o CPF fazer compras em qualquer comércio”, completa.

Comunidade

Utilizadas principalmente por pessoas de baixa renda que têm dificuldade de acesso à rede bancária convencional, as moedas sociais estão espalhadas em todo o Brasil, gerenciadas por 113 bancos comunitários, distribuídos em 20 estados e 90 municípios de todas as regiões.

De modo geral, seus usuários estão espalhados pelas periferias das grandes cidades, comunidades indígenas, vilas de pescadores ou na zona rural. Apenas no Ceará, estado brasileiro com o maior número de bancos comunitários, há mais de 30 instituições, segundo dados da RBBC.

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