Copom vê reversão da retomada e associa viés de alta ao risco fiscal

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Colegiado do Banco Central avalia “incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia” e “arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais”, mas não diz tudo, segundo especialista

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) informou, nesta terça-feira (26/1), por meio da ata em que explica a decisão tomada na semana passada de manter os juros em 2% ao ano, que o cenário doméstico terá uma recuperação mais lenta ou mesmo reversão temporária da retomada econômica. Apesar de os indicadores do fim do ano passado terem surpreendido positivamente, o Copom avaliou que não considera os efeitos do aumento recente no número de casos de covid-19.

“Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro trimestre deste ano, concomitantemente ao esperado arrefecimento dos efeitos dos auxílios emergenciais”, explicou. O colegiado também deixou claro que avalia elevação na taxa básica de juros, ao colocar um viés de alta associado aos riscos fiscais.

Segundo a ata, a “pouca previsibilidade associada à evolução da pandemia e ao necessário ajuste dos gastos públicos a partir de 2021 aumenta a incerteza sobre a continuidade da retomada da atividade econômica”.

Para o economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, há muito tempo o BC reformulou seu instrumento de comunicação com o mercado e, hoje, o comunicado que é liberado logo após a decisão da Selic já tem muitas das informações centrais da decisão do colegiado. “Neste sentido, a leitura da ata traz poucas novidades em relação ao comunicado, por isso mantemos nossa análise da passada, na qual apontamos que irá começar o ciclo de aperto na próxima reunião com uma alta de 25 pontos base e levará a taxa a 4% ao final de 2021”, estimou.

“Queremos apenas reforçar que nos parece que o colegiado não tem falado com todas as letras, por assim dizer, dos riscos fiscais. O Copom explica os motivos para o fim do forward guidance (prescrição futura, em inglês), mas os riscos fiscais são muito maiores do que descreve. Este é o grande motivo para a alta de juros no Brasil e o BC vem avisando isso há muito tempo. Neste sentido, o colegiado fala muito, mas não diz tudo”, opinou.

Na ata, o Copom reforçou que a retirada do forward guidance de sua comunicação, na semana passada, não implicará em uma elevação mecânica da taxa de juros. Desde agosto de 2020, o colegiado usava esse instrumento para se comprometer a não elevar os juros desde que três condições fossem satisfeitas: projeções de inflação abaixo da meta no horizonte relevante; manutenção do regime fiscal; e expectativas de longo prazo ancoradas.

“Em vista das novas informações, o Copom avalia que essas condições deixaram de ser satisfeitas já que as expectativas de inflação, assim como as projeções de inflação de seu cenário básico, estão suficientemente próximas da meta de inflação para o horizonte relevante de política monetária. Como consequência, o forward guidance deixa de existir e a condução da política monetária seguirá, doravante, a análise usual do balanço de riscos para a inflação prospectiva”, justificou.

O BC explicou, ainda, que as projeções de inflação estão ao redor da meta no horizonte relevante, mas repetiu que os riscos fiscais devem provocar alta nos juros. “O comitê ponderou que os riscos fiscais geram um viés de alta nessas projeções, potencialmente justificando trajetória com elevação dos juros anterior à assumida sob esse cenário”, disse.

Inflação persistente
A ata reforçou as expectativas de inflação para 2021, 2022 e 2023 apuradas pela pesquisa Focus, que encontram-se em torno de 3,4%, 3,5% e 3,25%, respectivamente. “A recente elevação no preço de commodities internacionais e seus reflexos sobre os preços de alimentos e combustíveis implicam elevação das projeções de inflação para os próximos meses. Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, ainda que tenham se revelado mais persistentes do que o esperado.”

No cenário básico, com trajetória para a taxa de juros extraída da pesquisa Focus e taxa de câmbio partindo de R$5,35 e evoluindo segundo a paridade do poder de compra, as projeções de inflação do Copom situam-se em torno de 3,6% para 2021 e 3,4% para 2022. “Esse cenário supõe trajetória de juros que se eleva até 3,25% a.a. em 2021 e 4,75% a.a. em 2022”, afirmou, na ata.

Fonte: Correio Braziliense

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