Artigo | “A vaia do dedo”, por Luiz Carlos Diógenes

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A edição desta quinta-feira (21/7) do jornal O Povo traz artigo do coordenador adjunto do Sintaf no Cariri, Luiz Carlos Diógenes, com o título “A vaia do dedo”. Confira:

A vaia é expressão, na boca, daquilo que não se contém na alma. Tal qual uma tapioca cearense, permite diferentes recheios fenomenológicos de ingredientes sociais e políticos. A vaia do dedo é a nossa tapioca de carne de sol com queijo coalho. É forte e dá sustança: nutre o corpo e ensina a alma. No Ceará tem disso sim!, como ensina o curso EAD do versado Tarcísio Matos. Os ensinamentos prático-teóricos, da vaia do dedo, estimulam e alicerçam as bases populares da democracia direta. Adotá-la, como magistério popular nacional, como chave histórica de ingresso à cidadania ativa e crítica, expressa sabedoria de vontade popular autônoma.

Na terra onde até mesmo o astro-rei já foi vaiado, por uma justificada ausência de motivação meteorológica, não demandaria nenhum esforço, ao povo cearense, em 1912, encerrar a oligarquia centrada na figura de Nogueira Accioly, sob uma acachapante vaia.

Vaia que o acompanhou, juntamente com sua família, até o embarque forçado na Ponte Metálica rumo à capital federal. Levara junto a alcunha de “babaquara”, tido como inculto na visão de seus opositores. Há quem diga que ainda marulha, a sensíveis ouvidos históricos, no mar da Praia de Iracema, vaia tão retumbante, e não menos humilhante.

O povo se vingara, a seu modo, das fraudes eleitorais e outras práticas mandonistas. Também ficava reparada, de certa forma, a perseguição política sofrida por intelectuais voltados às causas sociais, a exemplo do sanitarista Rodolfo Teófilo. Até mesmo o cargo de professor lhe fora usurpado.

Neste contexto emerge a ”vaia do dedo”, espontânea manifestação cidadã de apoio à sentença aplicada aos babaquaras-miúdos sectários do babaquara-mor. No cadafalso de um banco da Praça do Ferreira eram executados os assumidos ”marretas” acciolistas.

Sarcástico rabelista, em escusas, fundeava um devasso dedo-do-meio na região glútea dos indigitados babaquaras-miúdos. Todo o irreverente espírito cearense esbaldava-se em patriótica vaia. A vaia do dedo, no âmbito da democracia, serve de corretivo e prática pedagógica. A vaia do dedo recompõe a balança da justiça dos iguais.

Fonte: O Povo
https://mais.opovo.com.br/jornal/opiniao/2022/07/21/luiz-carlos-diogenes-a-vaia-do-dedo.html#.YtlhDEBmS_A.whatsapp

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