Novo Crediário com parcelamento em até 60 vezes pode aumentar endividamento; entenda riscos

41

Modalidade de pagamento ainda não tem previsão de chegada ao mercado brasileiro

Após mudanças nos juros rotativos do cartão de crédito, limitados a 100% ao ano, o setor de meios eletrônicos de pagamento pretende repaginar o crediário, um método já conhecido do grande público.

O assunto foi uma das discussões centrais durante o 17º Congresso dos Meios Eletrônicos de Pagamento (CMEP 2024), realizado por meio da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Chamada de Novo Crediário, a metodologia deve ser uma opção adicional na hora de pagar as compras dos consumidores.

De acordo com representantes da Abecs e do setor, o Novo Crediário será discutido com o Banco Central, autoridade reguladora do segmento no País, nas próximas semanas e deve trazer benefícios para bancos, lojistas e consumidores.

Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste, no entanto, atentam para os cuidados, principalmente para os clientes, pois os atrativos da modalidade podem pressionar o endividamento das famílias.

PARCELAMENTO MAIOR, MAS COM JUROS
As bases da nova modalidade já existem no mercado e são praticadas por varejistas de diversos tamanhos. Trata-se do crediário, reconhecido no passado principalmente pelo uso dos carnês exclusivos.

Segundo informações repassadas pela Abecs, no chamado Novo Crediário, haverá a padronização da forma de pagamento, descontada diretamente no cartão de crédito dos clientes.

Serão ofertadas condições para parcelamentos que podem chegar até a 60 vezes, bem acima do atual esquema sem juros, que gira em torno de 10 a 12 vezes.

Os lojistas, que recebem de forma parcelada o pagamento, vão embolsar integralmente os valores dos produtos comprados pelos clientes.

Os bancos também aumentam o lucro, pois o parcelamento será com juros, que varia de acordo com cada instituição.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Rogério Magno Panca, diretor de Cartões e Pagamentos Digitais do Banco Santander, pontua que de fato os benefícios para lojistas e bancos tornam o Novo Crediário mais atrativo, mas afasta a possibilidade do fim do parcelamento sem juros.

“A gente tem uma equação hoje onde a gente tem 75% do saldo de cartão de crédito pessoa física sem incidência de nenhum tipo de juros, porque 82% dos clientes pagam a sua fatura no dia do vencimento na íntegra. Eles não entram sequer no rotativo, nem fazem um tipo de parcelamento de fatura com o emissor do cartão”, aponta.

“O que a gente precisa é mexer nessa pizza de 25% do saldo com juros. Se for olhar no comércio em geral, o grosso do parcelado sem juros está entre 3, 6, 8 vezes, e muitas vezes o consumidor precisa de uma capacidade de pagamento adicional para que o consumidor tenha 12, 15, 24, 48 meses para pagar”, completa o diretor do Santander.

CAPITAL DE GIRO E ANÁLISE DOS CONSUMIDORES
Outro ponto ressaltado por Rogério Magno Panca é sobre o capital de giro dos pequenos lojistas, que segundo ele fica sufocado pelos altos parcelamentos sem juros e perde a capacidade de competir com empresas maiores.

“Em vez de receber em uma parcela, o estabelecimento comercial vai demorar a receber, porque o banco só vai terminar de pagar daqui a alguns anos. A beleza do crediário é que o cliente tem o prazo estendido e o estabelecimento recebe como se fosse uma venda à vista, como se fosse uma transação no débito, onde no dia seguinte aquilo já está disponível para ele”, explica.

No projeto piloto desenvolvido em 2021 do Novo Crediário em algumas cidades do Brasil, o Santander trabalhava com taxas de 2% ao mês. Ao fim do prazo máximo de 48 meses — definido pelo banco — do meio de pagamento, o cliente pagava aproximadamente o dobro do valor da mercadoria.

Nas nossas próprias operações, quando a gente coloca 48 meses, 95% das nossas operações saem em até 18 meses, então o consumidor de fato se planeja ali para pagar aquilo em um ano e meio. A gente oferece porque ele eventualmente pode contratar a depender do tamanho da oportunidade que ele tem e a necessidade.

ROGÉRIO MAGNO PANCA
Diretor de Cartões e Pagamentos Digitais do Santander

“Vai muito da análise do consumidor que quer fazer uma operação de crédito de financiamento ao consumo e tem que avaliar o desejo em poder poupar e esperar o tempo necessário para fazer aquela compra à vista, ou eventualmente qual o benefício que ele tem de pagar juros e poder diluir isso no seu fluxo de caixa”, avalia.

PERDE DE UM LADO, GANHA DE OUTRO
O Novo Crediário aumenta a rentabilidade de bancos em meio ao limite do rotativo do cartão de crédito, que no passado chegou a quase 450% ao ano e atualmente não pode ultrapassar os 100% do valor da compra.

É o que analisa o economista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Ricardo Coimbra. Para ele, o novo meio de pagamento compensa a limitação do rotativo do cartão de crédito.

“É um mecanismo que está sendo negociado entre as instituições financeiras e o mercado, aquele que deseja vender e muitas vezes o próprio cliente não tem capacidade de comprar e pagar num prazo mais curto. Passa-se a ter prazos menores para as operações sem juros, e para os maiores, com juros, e aí serão negociadas as taxas com os clientes”, observa.

A economista especialista em educação financeira e colunista do Diário do Nordeste, Ana Alves, chama o Novo Crediário de “resposta” dos bancos ao limite do rotativo, e acredita que haverá um “desestímulo” ao uso do parcelamento sem juros.

“É muito similar ao crédito pessoal, ou seja, voltado para compras de maior valor. O que vai acontecer é que vai permitir uma facilidade nesse financiamento, de acordo com o crédito cedido para cada consumidor, mas a pergunta é se o endividamento da população deve subir”, alerta.

RISCO DE INADIMPLÊNCIA MAIOR
Como as operações serão em mais parcelas e, consequentemente, com maior tempo para pagar, há ainda o risco de um endividamento maior por parte da população. Vale lembrar que, somente em Fortaleza, mais da metade da população está inadimplente, de acordo com dados da Serasa.

“Tendo parcelamentos maiores com juros, gera a possibilidade do crescimento do endividamento ou do comprometimento da renda das pessoas em relação a pagamentos futuros, e a necessidade de um bom controle, de uma boa educação financeira para se estruturar e se organizar nesse parcelamento de longo prazo”, atenta o economista.

Como ainda não há prazo para que o Novo Crediário entre em vigor, Ana Alves destaca que, mesmo com as condições atrativas, o parcelamento sem juros é uma saída mais vantajosa, principalmente pelas semelhanças com o pagamento à vista.

Em termos de orientação financeira, o que a gente sempre fala é que, de fato, o parcelamento sem juros sempre é melhor do que o com juros, porque na opção de se parcelar com juros, o ideal é que você compre a vista. A gente retoma aqui a questão e a importância do planejamento financeiro, principalmente em compras de maior valor que possa exigir dívidas ao longo de cinco anos.

ANA ALVES
Economista e colunista do Diário do Nordeste

Fonte: Diário do Nordeste

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here