Metade dos contratados no Ceará em 2019 recebia menos de R$ 1.059

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Por Hugo Renan do Nascimento

Segundo levantamento do Núcleo de Dados do Sistema Verdes Mares com base no Caged, 50% dos empregados no Estado ganhavam menos de R$ 1.059, enquanto metade dos profissionais desligados recebia menos de R$ 1.077

Independentemente de idade, sexo ou setor da atividade econômica, 50% dos trabalhadores admitidos no Ceará em 2019 ganhavam menos que R$ 1.059. Análise do Núcleo de Dados do Sistema Verdes Mares, baseada no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério da Economia, mostra que a mediana do salário dos empregados admitidos no ano passado era R$ 18 menor que a dos rendimentos dos que foram desligados no mesmo período (R$ 1.077).

A discrepância entre os valores recebidos por profissionais admitidos e os desligados que são da mesma faixa etária é maior entre trabalhadores de até 14 anos (jovens aprendizes), que chega a R$ 273. Enquanto metade dos jovens demitidos recebia menos de R$ 743, o rendimento de 50% dos que foram contratados era menor que R$ 470.

A diferença também é significativa entre trabalhadores de 75 a 79 anos – enquanto metade dos profissionais que foram demitidos recebia menos de R$ 1.275, metade daqueles da mesma faixa etária que foram admitidos tinha rendimentos inferiores a R$ 1.049, valor R$ 226 menor.

Entre os setores da economia, a maior disparidade entre contratados e demitidos foi registrada pela construção civil, que chegou a R$ 40 (mediana de R$ 1.240 entre os desligados e de R$ 1.200 para os admitidos). O professor do curso de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC) Aécio Alves Oliveira aponta essa diferença salarial como uma lógica do sistema capitalista em que há substituição de mão de obra com menores remunerações.

“A construção civil tem um exército de reserva de trabalhadores. A crise significa aumentar o exército de reserva, ou seja, as pessoas desempregadas deste setor estão aguardando uma vaga na construção. Mas as tecnologias também têm facilitado tarefas neste setor. Se tem uma reserva expressiva, por que pagar o mesmo salário? Não tem porquê. A lógica do lucro aponta nesta direção”, explica.

Na comparação feita entre trabalhadores do sexo masculino e feminino, também existem diferenças. Entre os homens, essa disparidade é ainda maior: enquanto metade dos trabalhadores admitidos no Estado em 2019 ganhava menos de R$ 1.073, os demitidos no mesmo período recebiam menos de R$ 1.103, uma diferença de R$ 70.

Já 50% das mulheres contratadas eram remuneradas com valores abaixo de R$ 1.049, enquanto metade das demitidas recebia menos de R$ 1.059 – em ambos casos, valores menores que os dos homens.

Para o professor da UFC, a tendência do mercado é igualar cada vez mais os salários de homens e mulheres. No entanto, isso acontece pela média de remuneração menor.

“A minha hipótese é que as mulheres ganham menos mesmo. Então, vamos diminuir o salário dos homens até o salário deles se igualarem por baixo. A tendência é essa. A diminuição do salário das mulheres é menor do que a dos homens”, acrescenta Oliveira.

Segundo ele, as tendências de longo prazo, como as inovações tecnológicas, reforçam as de curto prazo, como as crises econômicas. “As inovações são introduzidas, você tem crises de curto prazo em que ocorrem demissões e depois tem a recontratação pagando menos. Homens e mulheres podem fazer qualquer coisa em qualquer lugar”, avalia o professor.

Influência

Na opinião de Mardônio Costa, analista de Mercado de Trabalho do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), a crise econômica que perpassa o País nos últimos anos tem influenciado essa diferença salarial.

“A crise fez com que as empresas, para não reduzirem ainda mais a sua margem de lucro, lancem mão de estratégias diversas para manter a lucratividade da empresa. Mas, com certeza, isso é uma prática que reflete esse momento econômico. Isso não é de hoje, vem de algum tempo e funciona como uma prática de achatamento salarial”.

Costa acrescenta que, de fato, as remunerações dos trabalhadores admitidos são menores na comparação com os demitidos no Estado.

“Independentemente de sexo, de faixa etária, de setor da atividade econômica, os salários de admissão são ligeiramente menores do que os salários dos desligados. É a contratação de trabalhadores a salários menores também como estratégia de evitar a perda maior de lucratividade das empresas. Redução de custos que também está associada a esse perfil de mão de obra mais jovem”.

Setores econômicos

O analista do IDT diz ainda que os serviços e o comércio estão sustentando o emprego com carteira assinada no Ceará. “A indústria e a construção civil, que são dois setores que necessitam de uma mão de obra relativamente mais qualificada, tendem a pegar trabalhadores com mais idade, e eles estarão mais associados a um nível salarial um pouco acima dos trabalhadores atuais”.

Segundo ele, a maior parte dos empregos perdidos no ano passado no Estado estava na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF).

“Esse comportamento setorial do emprego formal no Ceará propicia elementos adicionais para uma melhor compreensão da evolução menos favorável do mercado de trabalho da RMF em 2019, que esteve diretamente associada à trajetória do emprego na indústria de transformação e na construção, uma vez que 96,1% dos empregos extintos na indústria de transformação e 73,8% dos empregos perdidos na construção civil ocorreram na RMF, além de que grande parte dos empregos gerados no comércio fora observada no interior do Estado (2.105 vagas), ficando a RMF com apenas 324 novos empregos”, analisa.

Mudanças

O vendedor Luan Costa, de 30 anos, não sentiu essa disparidade de salários. Ele trabalha há pelo menos 14 anos na mesma profissão e acredita que as mudanças ocorreram mais em função da atividade em si do que na remuneração.

“A questão do salário continua sendo a mesma remuneração de um profissional nessa área. Não percebi muitas mudanças. O salário não teve grandes alterações em quatro anos e seguem os reajustes anuais da categoria”.

Segundo ele, as empresas, nos últimos anos, estão mais exigentes com os profissionais.

“Não é o meu caso, mas em algumas empresas você entra para fazer um serviço e no fim das contas você está fazendo mais outras coisas. Já fui em uma entrevista de emprego em que a contratante exigia meio de transporte do candidato para que ele fosse uma vez ao mês ao supermercado comprar material de limpeza para limpar o local de trabalho. Você é contratado como atendente, por exemplo, e é delegado mil e uma funções para a pessoa”, acrescenta.

Outra mudança no mercado de trabalho notada por Luan é o comportamento dos clientes. “Como eu trabalho há muito tempo com vendas eu noto que os clientes estão cada vez mais acomodados com as facilidades dos aplicativos”, afirma.

FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE

LINK: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/editorias/negocios/metade-dos-contratados-no-ceara-em-2019-recebia-menos-de-r-1-059-1.2206998

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