Isolamento social é menos seguido nas Regionais I, III e V da Capital

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Pesquisadores da UFC coletaram dados de quase 2 mil pessoas e analisaram que bairros de menor renda são mais propícios ao descumprimento, pela ausência de infraestrutura satisfatória de habitação e necessidade de trabalhar

O isolamento social em todo o Ceará já completou um mês como recomendação para frear a disseminação do novo coronavírus. Contudo, a medida tem se enfraquecido desde o início de abril, embora seja válida até 5 de maio. Em Fortaleza, aglomerações de pessoas nas ruas se repetem todos os dias, mas especialmente em algumas áreas. Uma pesquisa do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Política e Cultura da Universidade Federal do Ceará (Lepec/UFC) aferiu que Regionais I, III e V são as que menos cumprem o isolamento na Capital, segundo a percepção dos próprios moradores.

A liderança ficou com a Regional III, onde 64,9% dos respondentes afirmou que a vizinhança ignora o isolamento. Em seguida, vem a Regional V, com 63,7%, e a I, com 63,3%. Junto à Regional VI (51,7%), a negativa no cumprimento é maior que 50% em quatro das sete áreas administrativas da cidade, denotando que “a maior parcela dessas regiões da cidade não está cumprindo com as recomendações dos órgãos de saúde”, indica o estudo. O menor percentual ficou na Regional II, com 26,3%.

“A vida na quarentena: Deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza” coletou impressões de 1.977 pessoas, de 120 bairros, através de um questionário enviado por redes sociais. A pesquisa ocorreu na terceira semana de isolamento, entre 8 e 11 de abril, quando a Capital tinha 2.464 casos confirmados e 86 óbitos por Covid-19. Atualmente, os números cresceram para 3.018 e 176, respectivamente, de acordo com a plataforma IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa).

A pesquisa divide as situações para desrespeito à quarentena em duas categorias: as de ordem prática e as comportamentais. Na primeira, estão ações como comprar comidas e remédios, pagar contas ou sair para trabalhar. Por isso, entre os locais indicados pelos respondentes com maior aglomeração de pessoas, estão supermercados (60,8%), casas lotéricas (45,6%) e pontos de ônibus ou terminal (19,7%). A pesquisa não forneceu o campo “agências bancárias”, onde há concentração nos últimos dias pela busca ao benefício de R$ 600 do Governo Federal.

A segunda se refere a fatores culturais notados em bairros com maior adensamento populacional: presença de grupos conversando em calçadas (49,1%); ingerindo bebida alcoólica em calçadas ou bares (39,6%) e jogando bola na rua (20,3%). A pesquisa, contudo, não ignora que, para muitos moradores de bairros mais pobres, “essas são as únicas possibilidades de lazer”.

Para a socióloga Danyelle Nilin, líder da pesquisa, na periferia ainda não há tanta adesão a serviços virtuais que tornam a presença física menos necessária, como pagar contas. “O conhecimento prévio é muito definidor de como as pessoas agem. Não é tão simples, em um mês, uma pessoa que não usava aplicativo mudar de cultura, ainda que ela tenha acesso a celular e internet. Viver em habitações muito precárias e aglomeradas também pode ser um desestímulo”, observa ela, que assina a pesquisa com Irapuan Peixoto, Harlon Romariz e Rafael de Mesquita.

Necessidade
No Grande Bom Jardim, que tem um contingente populacional de mais de 120 mil habitantes, a voluntária Ingrid Rabelo notou que as casas “já são o próprio aglomerado”. Em algumas, há dois cômodos para cinco, seis, dez pessoas. Outras nem janela têm. Além da habitação, a renda compromete a promoção da saúde. “A gente concorda que o isolamento social é super importante à medida que está salvando vidas, mas percebemos que, se essas famílias não estão tendo comida em casa, elas vão procurar alguma saída”, afirma.

No trabalho social, ela conheceu catadores que atravessam a cidade para garantir alguma reserva econômica. Por isso, as ações de apoio se concentram em distribuir kits de alimentos e higiene pessoal, junto à conscientização sobre boas práticas de limpeza, até mesmo das doações. “Elas têm uma recepção positiva porque não querem adoecer. Elas têm a vivência da precarização do sistema de saúde e a dificuldade de ser atendido”, anota Ingrid.

Além de tenderem a descumprir o isolamento, os bairros de menor renda também são os mais atingidos pela necessidade de se deslocar para trabalho. Nas mesmas regionais onde há mais gente na rua, os respondentes também compartilham as maiores taxas de, pelo menos, um familiar saindo a trabalho cotidianamente: Regional V (48%), Regional III (47,8%), Regional I (46,9%) e Regional VI (46,6%).

Tais deslocamentos têm como destino os maiores polos de oferta de serviços e comércios da Capital: Aldeota e Centro. Os dois bairros já tiveram 166 e 19 casos de Covid-19 confirmados, respectivamente, segundo boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) divulgado na última segunda-feira (20). Colado a eles, está o Meireles, com 211 confirmações e sete óbitos.

Riscos
O estudo da UFC alerta que há “fortes riscos para as periferias” em relação à disseminação da Covid-19 porque a parcela da população que mantém a circulação na cidade “está se expondo mais ao risco de se contaminar” – inclusive no transporte público, como lembra o professor Irapuan Peixoto, do Departamento de Ciências Sociais da UFC.

“Chama atenção que tipos de postos de trabalho elas ocupam: são babás, faxineiras, porteiros, zeladores. Quem realiza esses serviços continua a trabalhar, seja para empresas, condomínios ou famílias. No caso específico da Aldeota, além de comércios e bancos, tem muita demanda por serviços domésticos, que levam uma grande quantidade de pessoas a esse deslocamento”, descreve.

Por outro lado, a pesquisa constatou que as classes média, média alta e alta têm mais condições de manter o isolamento, saindo menos para trabalhar – nas Regionais II e IV, o índice de familiares com essa prática não chega a 30% -, não usando transporte público e vivendo em situações com menos aglomerações; segundo Danyelle Nilin, mais em supermercados e em decks de condomínios.

“As desigualdades sociais da cidade vão, muito provavelmente, aparecer de forma mais forte neste momento”, pontua a pesquisadora. Para ela, o momento é de o Poder Público conter a pandemia; mas, superada a crise, será preciso avaliar a melhoria de políticas públicas nas áreas de habitação, lazer e acesso à saúde.

“Também precisamos de um maior grau de campanhas educativas eficazes porque, além de todo o problema da pandemia, temos as fake news, com as pessoas não acreditando na ciência e nos dados, mas sim nas crenças imediatas. São desafios para além da redução da desigualdade porque, numa situação como a gente vive, há uma tendência a um desastre ainda maior do que em outros países”, destaca Nilin.

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