Copom mantém ritmo de corte dos juros e reduz Selic para 11,25% ao ano

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Atento ao problema fiscal, Banco Central mantém a cadência de corte na Selic de 0,50 ponto percentual e não deixa espaço para acelerar o ajuste monetário. Analistas avaliam que, no segundo semestre, mudanças devem ser mais brandas, até o patamar de 9,25%

Na primeira reunião do ano e com nova formação, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, reduziu, ontem, a taxa básica da economia (Selic) em 0,50 ponto percentual, para 11,25% ao ano. É o menor patamar desde março de 2022. A decisão foi unânime e, no comunicado divulgado após o segundo dia de trabalhos, o comitê sinalizou que manterá o ritmo de cortes nas próximas reuniões. Essa mensagem frustrou quem esperava uma aceleração no ciclo de ajuste nos juros que está em curso desde agosto do ano passado.

De acordo com o comunicado, os diretores do BC “avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. O Copom ainda reforçou a preocupação com o cenário externo e o equilíbrio das contas públicas, destacando a necessidade do cumprimento das metas fiscais. “Tendo em conta a importância da execução das metas fiscais já estabelecidas para a ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária, o Comitê reafirma a importância da firme persecução dessas metas”, informou a nota.

Apesar da nova queda da taxa Selic, o Brasil manteve-se na vice-liderança do ranking global de juros reais (descontada a inflação), levantado pelo economista Jason Vieira, da MoneYou. Considerando a projeção do custo de vida para os próximos 12 meses, o juro real do Brasil, de 5,95%, só ficou atrás do México e bem acima da média geral dos 40 países listados, de 0,69% ao ano.

A decisão do Copom veio em linha com o consenso do mercado e o comunicado também não teve surpresas, como ocorreu com a reunião do Fomc, comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), que manteve entre 5,25% e 5,50% ao ano o intervalo dos juros básicos na maior economia do planeta. É o patamar mais alto dos últimos 22 anos nos EUA.

Diante do comunicado do Comitê do Banco Central brasileiro, analistas preveem que o ritmo de corte de 0,50 ponto deverá ser mantido nas reuniões do primeiro semestre (março, maio e junho), de acordo com o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani. “A lógica dessa estratégia do BC é que, com o processo desinflacionário em curso, o Banco Central tem espaço para fazer um ajuste mais alongado. Agora, não há espaço para aumentar o ritmo de corte, como parte do mercado especulava”, alertou. Padovani acredita que, no segundo semestre, é possível que as reduções passem para 0,25 ponto percentual, e a Selic termine o ano em 9%.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, também avaliou a reunião do Copom dentro das expectativas, mas acredita em algumas surpresas na segunda metade do ano. “O Comitê vai continuar reduzindo juros no mesmo ritmo nas próximas reuniões, o que coloca o primeiro semestre sem muitas novidades vindas do BC. A preocupação fiscal foi muito moderada, mas devem vir mais sinalizações na ata da próxima terça-feira. Acho que vamos ter ainda umas três reuniões sem grandes sustos”, disse.

Para Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, a nota do Copom foi praticamente um “copia e cola” do texto da reunião anterior. “A nossa avaliação é que o Copom teve pouca novidade e veio dentro do esperado. A inflação continua caindo devagarzinho, e isso dá espaço para o Copom continuar fazendo quedas graduais nos juros”, considerou.

Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, o Copom manteve a linha monetária. “Nada de novo na análise de atividade econômica (desaceleração), da inflação (desinflação), das projeções de inflação, dos riscos de alta e de baixa, da importância da firme persecução das metas fiscais, da reancoragem apenas parcial das expectativas”. Ele mantém em 9,25% a previsão para a Selic no fim do ano.

Entidades do setor produtivo, contudo, criticaram a decisão do Copom. Em nota, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), afirmou que “já está na hora de acelerar o ritmo da queda para que a economia possa crescer mais do que o previsto atualmente e viabilizar a retomada do consumo e da produção industrial”. A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), por sua vez, defendeu que há espaço para cortes mais intensos nos juros. “Os cortes mais acentuados dos juros também se justificam pelos dados de curto prazo, que indicam um cenário de desaceleração da atividade econômica”, escreveu a entidade em nota enviada após a decisão do Copom.

Ao mesmo tempo, a Firjan reconheceu, contudo, que o ambiente externo –- marcado pela escalada de conflitos geopolíticos, como a crise no Mar Vermelho, e por fenômenos climáticos –- “traz incertezas para os preços futuros” e ressaltou que a atenção redobrada às contas públicas “fundamental” para colaborar com o afrouxamento da política monetária. “A disciplina fiscal, através de uma gestão eficiente dos gastos públicos, não apenas facilitará uma redução consistente da taxa Selic, mas também abrirá espaço para novos planos de investimento. Uma política fiscal responsável contribuirá para a nova política industrial e impulsionará, por consequência, a competitividade, a criação de empregos de qualidade e o crescimento econômico sustentável”, acrescentou.

Fonte: Correio Braziliense

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