Remessa de lucros e dividendos cai 37% no ano

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Câmbio e atividade explicam resultado; investimentos em ações, fundos e renda fixa estão de volta

As remessas de lucros e dividendos para o exterior seguem bem inferiores às observadas em 2019, apesar da recuperação recente dos resultados das empresas. Já os investimentos em ações, fundos e renda fixa estão voltando para o Brasil, depois de uma intensa fuga de recursos causada pela pandemia. O retorno desses investimentos, no entanto, ainda não é suficiente para cobrir o rombo gerado no momento mais agudo da crise.

Em outubro, a remessa líquida de lucros e dividendos das empresas para o exterior ficou positiva em US$ 919 milhões, segundo números divulgados ontem pelo Banco Central (BC). No mesmo mês do ano passado, elas atingiram US$ 4,187 bilhões. No acumulado deste ano, por sua vez, somam US$ 16,5 bilhões, queda de 37% em relação aos US$ 26,2 bilhões de janeiro a outubro de 2019.

“Não há renda a remeter”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves. Ele lista as razões para isso: economia em recessão, juros baixos e demanda por recursos intercompanhia.

O dólar caro é também um motivo apontado por Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “É uma transação externa, por isso depende da variação do câmbio”, afirma. O real teve uma depreciação muito forte ao longo do primeiro semestre e isso retraiu o envio de recursos para fora. O nível da atividade é outra razão para a queda nas remessas, segundo ele.

Se haverá aumento de remessas em 2021, é algo que depende do planejamento das empresas, de acordo com Vale. Há expectativa geral que a taxa de câmbio recue um pouco, dos atuais R$ 5,50 para algo como R$ 5,20, o que favoreceria essas operações.

Ele, porém, não acredita em uma apreciação do real ante o dólar tão cedo, devido às incertezas na política fiscal.

“A economia se recuperou, mas ainda não atingiu o nível pré-covid”, diz Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). Por isso, há menos lucro a ser remetido. Ele também destaca que o real depreciado ante o dólar é um fator limitante.

Por enquanto, o que se vê na conta de lucros e dividendos é uma recuperação incompleta, segundo o chefe do departamento de estatísticas da autoridade monetária, Fernando Rocha. Ele destaca que os ativos brasileiros no exterior voltaram a dar resultado em níveis semelhantes aos de 2019. Já os ganhos das empresas estrangeiras no Brasil estão aquém dos ocorridos no ano passado. “Tem recuperação, mas ainda incompleta”, disse em entrevista coletiva. No dado parcial de novembro, até o dia 20, a conta de lucros indicava ingresso de US$ 1,319 bilhão.

Os investimentos em carteira negociados no mercado doméstico foram positivos em US$ 5,47 bilhões em outubro. Foi o maior ingresso líquido desde janeiro de 2019, quando o investimento ficou em US$ 6,37 bilhões. “O investidor está retornando ao país depois daquela saída de fevereiro a maio”, disse Rocha.

Contando com novembro, quando a expectativa é de ingressos líquidos, serão seis meses de entrada de recursos externos para investimentos em renda fixa e variável. Ainda assim, o saldo no ano é negativo. No acumulado até outubro, estava em US$ 21,6 bilhões negativos.

O câmbio e as medidas de isolamento contribuíram também para a queda nas despesas de brasileiros em viagens internacionais. Em outubro, somaram US$ 284 milhões, ante US$ 1,506 bilhão no mesmo mês do ano passado. Os gastos com estrangeiros no Brasil, de US$ 181 milhões, resultaram em déficit de US$ 103 milhões.

Enquanto isso, os investimentos diretos no país foram de US$ 1,793 bilhão em outubro, somando US$ 31,914 bilhões no ano. De janeiro a outubro de 2019, haviam chegado a US$ 57,615 bilhões. A previsão para novembro é de US$ 1 bilhão, e a tendência recente tem sido a estabilidade. Há indícios que investimentos estejam sendo postergados, disse Rocha, a julgar por informações recebidas por outros órgãos de governo.

De acordo com o BC, o saldo das transações correntes foi negativo em US$ 1,473 bilhão em outubro. No ano, o déficit chega a US$ 7,588 bilhões, ante déficit de US$ 42,938 bilhões no mesmo período de 2019. As três principais rubricas das transações correntes têm se comportado da mesma maneira, apontando redução do déficit, disse Rocha. Tanto em outubro quanto no acumulado do ano, o resultado é formado pelo aumento do superávit da balança comercial e do déficit na conta de serviços e de redução na renda primária.

Fonte: Valor Econômico

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