Países da América Latina enfrentam escalada de preços ao mesmo tempo e revivem trauma da inflação sem fim

47

Alta persistente de itens básicos corrói renda e agrava cenário de aumento da pobreza e baixo crescimento na região. Para especialistas, cresce o risco de convulsões sociais como a atual no Peru

Depois de duas décadas — em alguns casos mais — de estabilidade e controle na economia, a inflação voltou a assombrar vários países da América Latina ao mesmo tempo.

A tendência que já vinha aparecendo em 2021 se acentuou este ano com a guerra na Ucrânia, que turbinou a alta das commodities por trás da escalada dos preços de alimentos e combustíveis.

Especialistas alertam para os riscos de convulsão social e repercussões políticas, como se viu nos últimos dias no Peru. O presidente Pedro Castillo chegou a decretar toque de recolher para conter protestos no país que, em março, registrou inflação de 1,48%, taxa mensal mais alta desde fevereiro de 1996.

Na Argentina, as filas são gigantescas nos supermercados de atacado da Grande Buenos Aires. Os preços são reajustados toda semana.

Neste início de abril, com economistas e políticos locais falando abertamente sobre o risco de hiperinflação no médio prazo, os argentinos estão em pânico diante do impacto negativo da guerra num país que fechou 2021 com alta de 50,9% no Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e caminha para encerrar este ano com 60% ou mais.

O caso argentino é dramático, mas não é isolado. O fantasma da inflação paira sobre a maioria dos países da América Latina e agrava as já muitas dificuldades econômicas da região.

Se na primeira década deste século o ciclo de valorização das commodities trouxe crescimento econômico elevado e recursos para financiar com folga programas sociais nos países latino-americanos, o cenário atual é bem diferente.

Agora, a inflação agrava o cenário de baixo crescimento e aumento do desemprego enquanto os bancos centrais são obrigados a responder com alta de juros.

— Ninguém na região vai escapar do choque de preços das commodities. A guerra só piorou um cenário que já era ruim, depois de um período longo de crescimento baixo — , diagnostica Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e membro do Policy Center for the New South.

Ele não considera exagero falar em hiperinflação na Argentina:

— A partir do momento em que se consolidam expectativas de inflação tão elevadas, eventuais choques acabam levando para cima essa dinâmica.

Antecedentes traumáticos

A América Latina tem antecedentes traumáticos quando se fala em hiperinflação, que se caracteriza por alta de preços de mais de 50% por pelo menos 30 dias seguidos, nas décadas de 1970 e 1980.

Um dos casos mais graves ocorreu justamente no Peru, no primeiro governo de Alan García (1985-1990), quando a inflação mensal alcançou 397%. Na Argentina, em 1989, a inflação chegou a 197% num único mês, e na Bolívia, em 1985, a 183%.

De acordo com dados do Banco Mundial, a inflação acumulada em 12 meses mais alta já registrada na América Latina foi na Bolívia, em 1985: 23.443%. O segundo recorde é argentino, com 20.262% em março de 1990. Em seguida vêm os 12.378% em agosto de 1990 no Peru e os 6.821% no Brasil em abril de 1990.

Os índices atuais estão muito longe desses episódios extremos, mas agravam um quadro já dramático de simultâneos aumentos da pobreza, desemprego e desaceleração dos crescimentos regional e global.

No México, os preços subiram 0,99% em março, acumulando alta de 7,45% em 12 meses, a maior dos últimos 21 anos. No Chile, em fevereiro passado, os preços subiram 7,8% e já se projeta inflação entre 8% e 10% para este ano, o que levou o banco central local a subir juros pela primeira vez em 20 anos.

Na Colômbia, em março a inflação foi de 1%, acumulando alta de 4,36% no primeiro trimestre, frente a 1,56% do mesmo período do ano passado e muito acima da meta de 3% do país.

— O que está acontecendo de diferente desta vez é que com o boom das commodities não está entrando uma quantidade de dinheiro que permita uma apreciação (valorização) das moedas (locais). No começo do século, a apreciação permitiu crescimento sem inflação — explica Daniela Campello, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV EBAPE) e pesquisadora residente do Wilson Center, para quem a perspectiva de alta dos juros nos EUA, que também enfrenta inflação alta, piora a situação porque tende a desviar capitais de mercados emergentes.

O Goldman Sachs acabou de revisar suas projeções para países da região, mas ainda parecem conservadoras diante dos números do primeiro trimestre deste ano. A previsão para inflação no Brasil subiu de 5,5% para 6,5%.

No Chile, passou de 5,5% para 6,2%. No Peru, foi de 3,5% para 4,8%. Os números são parecidos com os do JP Morgan. Veja no quadro abaixo:

No Brasil: Maior alta desde antes do Plano Real

No Brasil, após fechar 2021 com o IPCA em 10,6%, março registrou inflação de 1,62%, a mais alta para esse mês desde 1994, pouco antes do Plano Real, superando previsões.

Em 12 meses, o índice acumulado chegou a 11,3%. Os preços de combustíveis, transportes e alimentos seguem os vilões, tirando poder de compra das famílias, inclusive na classe média.

A aposentada Thina Alvarez, de 66 anos, que mora sozinha no Rio, mudou hábitos alimentares por causa das remarcações no supermercado e pensa duas vezes antes de assar um bolo com gás de cozinha e energia elétrica mais altos.

Ela estima que seu gasto mensal com itens básicos dobrou, mesmo com menos produtos na sacola e aproveitando promoções:

— Reduzi bastante o consumo de alguns itens, principalmente carne vermelha.

Encruzilhada política na Argentina

Na Argentina, os bancos esperam inflação acima dos 50% neste ano. Em alguns supermercados, produtos podem subir 20% por semana.

O governo do presidente Alberto Fernández está numa encruzilhada: continuar a emitir pesos para financiar programas sociais correndo o risco de acelerar ainda mais a inflação ou reduzir a circulação de dinheiro e enfrentar movimentos sociais e sindicatos às ruas.

Na semana passada, os chamados piqueteiros (beneficiados por programas sociais) acamparam no centro de Buenos Aires para exigir mais ajuda do Estado. No início de março, protestos contra o acordo de renegociação da dívida do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI) sacudiram a capital.

No Chile, o recém-empossado presidente Gabriel Boric já anunciou medidas para evitar uma crise de inflação com recessão. Entre fevereiro de 2021 e o mesmo mês deste ano, o IPC acumulou 7,8% e, pela primeira vez, em 20 anos, o banco central elevou a taxa referencial de juros de 2,75% para 7,5% em menos de seis meses.

Ex-editor da The Economist e autor de uma coluna sobre América Latina na publicação britânica, Michael Reid viajou ao Peru e viu o clima de revolta social provocado pela disparada da inflação. Nos últimos 12 meses, o índice atingiu 6,8% e, como observa Reid, esteve concentrado em alimentos, combustíveis, transporte e energia. Houve saques em cidades do interior do país.

— Sente-se a frustração e a raiva das pessoas. O Peru tem hoje um governo absolutamente incompetente para lidar com estes problemas — comenta o escritor e jornalista, para quem “um certo populismo fiscal” que não se via desde a década de 1980 preocupa os economistas. — Todos estão revisando suas previsões, porque acharam que o surto inflacionário duraria menos, mas hoje o consenso é de que a inflação vai durar pelo menos uns três ou quatro anos. O problema ficou mais sério.

Fonte: O Globo

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here