
X Conefaz também refletiu sobre o futuro do sindicalismo e trouxe, para o debate, o economista e presidente do IBGE, Márcio Pochmann
O tema do 3º painel do IX Conefaz, na tarde de 9 de novembro, “O sindicalismo tem futuro”, foi inspirado no livro quase homônimo do palestrante – o economista e presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Márcio Pochmann – “O sindicato tem futuro?”, obra que estimula a reflexão sobre os principais desafios do sindicalismo brasileiro da atualidade, ante o avanço do neoliberalismo. Em resposta à provocação da organização do Congresso, o economista afirmou que o sindicalismo tem futuro, “mas precisa mudar ou alterar a relação capital-trabalho”.
Pochmann é autor de mais de 50 obras sobre economia, desenvolvimento e políticas públicas. Em sua explanação sobre “a sustentabilidade dos sindicatos”, de início questionou: “Como nos reinventarmos, fazermos campanhas em tempos de PIX, de Whatsapp?” O debatedor do painel, conhecido do movimento sindical fazendário, foi Cícero Cavalcante, que atualmente coordena o Programa Ceará Sem Fome, do Governo do Estado do Ceará; na mediação, o diretor de Organização do Sintaf, Carlos Brasil.
Para quem afirma “que o sindicato tem futuro, mas não de modo autodeterminado, e sim se for resultado de sua capacidade de condicionar, ao mesmo tempo em que se encontra condicionado como um todo pela sociedade à qual pertence”, lógico será concluir que o sindicalismo tem futuro, desde que se mude a estrutura produtiva ou se se adapte aos novos cenários. Pochmann aponta para a necessidade de adoção de procedimentos diversos da parte das entidades sindicais, como solidariedade, esperança e pertencimento.
“O que vemos na atuação sindical presente é que algo novo requer um deslocamento da relação capital-trabalho”.
Mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciência Econômica, ele explica que o sindicato reúne trabalhadores que estão acostumados com a relação capital-trabalho; são trabalhadores contratados que negociam com os patrões. Trata-se de um modelo que está ficando para trás, no país. As mudanças históricas dessa relação impactaram a organização sindical, sobremaneira. “A carteira de trabalho gerava identidade, mas, na conjuntura presente, observamos trabalhos heterogêneos, a pessoa faz qualquer coisa para se financiar, sem que isso lhe dê identidade ou pertencimento”, pondera, esclarecendo que o trabalhador sabe que tem um débito (um custo de vida) que, para ser financiado, vai precisar de crédito.
“O sindicalismo é fruto da relação capital-trabalho, que é minoritário neste novo cenário. Temos uma massa que fará qualquer coisa para sobreviver. Por isso, o sindicalismo precisa mudar ou alterar essa relação. Como o sindicato atuaria na situação identificada pelo professor titular da Unicamp de “débito e crédito”? Os exemplos, Pochmann vai buscar em setores avançados nesse campo: as igrejas, principalmente as neopentecostais, e até mesmo no crime organizado. “Existe aí uma relação de pertencimento”.
O economista acredita que o movimento sindical precisa se reinventar, que os sindicatos precisam conhecer melhor quem eles querem representar diante das mudanças no mundo do trabalho, de modo que é preciso, em sua percepção, uma reorganização profunda do modo de fazer a ação política, a ação sindical. Aponta, como caminho possível, repensar o cenário atual em que se evidencia uma proliferação de atividades vinculadas às plataformas digitais. “O emprego não vai desparecer, ele mudou a sua natureza. Não há resposta pronta, ela virá da reflexão sobre o momento que estamos vivendo, e as oportunidades se abrem. E o Sintaf faz muito em refletir sobre isso”.
O debatedor Cícero Cavalcante destacou que, no livro “O sindicato tem futuro?”, Pochmann fez uma síntese de quase 200 anos do movimento operário-sindical, observando o sindicalismo tencionado pelo movimento do capital. “O sindicato tem futuro se o pensarmos condicionado a uma visão mais dialética da realidade, em que não se tenha medo de inovar, de fazer apostas. O que de fato há é uma necessidade de a gente repensar um conjunto de fatores, na perspectiva de que se possa fazer o que é novo e como podemos inovar. Temos dificuldades de pensar fora da caixa”.








