Mercado ignora crise militar no Governo Federal; Bolsa sobe 1,23% e dólar cai 0,15%

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Apesar da instabilidade política, indicadores financeiros apontaram uma redução de risco no Brasil

Foto: Shutterstock

Na manhã desta terça, Edson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica) colocaram seus cargos à disposição do general da reserva Walter Braga Netto, novo ministro da Defesa, e reafirmaram que os militares não participarão de nenhuma aventura golpista. A pedido do presidente Jair Bolsonaro, foram demitidos.

Em um sinal de menor aversão a risco, os juros futuros cederam. Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para o custo de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro. O juro para julho 2026 foi de 8,718% na véspera para 8,53% nesta terça. A taxa para janeiro de 2033 foi de 9,44% para 9,34%.

O risco-país medido pelo CDS de cinco anos sobe 1,9%, próximo ao fechamento do mercado, indo a 231,6 pontos, maior nível desde outubro de 2020.

Segundo André Perfeito, economista-chefe da Necton, a mudança nas Forças Armadas não implica grandes alterações de curto prazo, por isso o mercado não reage à notícia. “Não dá para dizer que Bolsonaro perdeu sua influência sobre as Forças Armadas, e mesmo que tenha perdido, militar não tem voto no Congresso. O mercado está mais interessado em saber se vão ser aprovadas as reformas ou não, e aparentemente Bolsonaro se aproximou do centrão”, disse.

Para o presidente do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon), Ricardo Coimbra, a troca de titular no Ministério das Relações Exteriores, saindo Ernesto Araújo e assumindo Carlos Alberto Franco França, tem  mais reflexo sobre o mercado que a situação dos militares.

“Aparentemente, o mercado não vem sofrendo nenhum tipo de alteração em relação a isso (saída do comando militar), mas muito mais em relação as outras mudanças como a do próprio Ernesto Araújo. A saída dele e a indicação de um novo embaixador ou alguém que comande de forma efetiva o Itamaraty buscando estimular a atividade econômica, buscando destravar as relações comerciais com outros países, isso aí está muito mais importando neste momento do que as mudanças na esfera militar”, destacou.

Bolsonaro trocou titulares de seis ministérios nesta segunda (29). Para analistas, a reforma ministerial, com acenos ao centrão – como ao colocar uma deputada do grupo, Flávia Arruda (PL-DF), para comandar a Secretaria de Governo – aumenta a possibilidade de aprovação de reformas, que reduziriam o déficit fiscal.

“A governabilidade sem sombra de dúvida irá melhorar”, diz Antonio Van Moorsel, sócio da Acqua Investimentos.

Para Coimbra, as mudanças no âmbito militar ainda estão sendo absorvidas pelo mercado. “Aparentemente, é apenas uma reestruturação do que o Governo Federal acha que deve ter com os seus aliados na área militar. Creio que não deve ter nenhum tipo de influência em relação à atividade econômica, nem, a princípio, à democracia. Por enquanto, o mercado não vê essa possibilidade de insegurança institucional, até porque se a gente observar, a bolsa está atuando hoje de forma positiva, o dólar em queda”, ponderou.

REAÇÕES

Já para Fran Bezerra, conselheiro do Corecon, com a saída podendo significar um enfraquecimento nas relações do Governo, de base majoritariamente militar, pode haver reações no mercado.

“Se entendermos que uma base de sustentação sólida do Governo Federal seria seu suporte na área militar, talvez se constituindo no Governo mais militarizado que o País já experimentou, a perda de apoio de parte desse estamento, se é que isso está de fato ocorrendo, representa um momento de instabilidade importante, com reflexos numa economia que já estava combalida por conta da pandemia”, avalia.

INSATISFAÇÃO

Essas movimentações do Governo podem jogar ainda mais peso sobre a insatisfação, já expressa, de investidores, disse o conselheiro.

“Os investidores já vinham manifestando algum nível de insatisfação com o Governo Federal há algum tempo, por conta de acontecimentos que demonstraram um comprometimento menor que o esperado em relação ao que podemos denominar de agenda liberal. Ocorrências como as demissões dos presidentes da Petrobras e do Banco do Brasil, um empenho encarado como menor que o esperado para avançar nas reformas de interesse do mercado (administrativa, fiscal, tributária). Enfim, o aparente pouco apetite do Governo Federal para abraçar de forma mais efetiva e com maior rapidez a agenda liberal prometida durante a campanha.”

Em carta aberta à sociedade, investidores e economistas brasileiros manifestaram insatisfação com a forma como o Governo Federal vem conduzindo ações diante da pandemia de Covid-19. A carta foi divulgada no último dia 22 de março, com assinatura de 500 economistas e banqueiros de todo o País.

“Soou como uma espécie de aviso de que o mercado não mais iria tolerar a forma como o Governo Federal vinha agindo, particularmente em relação ao enfrentamento da pandemia, pois está nítido para todos que qualquer esperança de retomada da economia só será possível após um amplo programa de imunização da população”, comentou Bezerra.

Diário do Nordeste

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