Indústria calçadista do CE estima recuperar produção em seis meses

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Segundo maior exportador do Ceará e um dos maiores empregadores do Estado, o setor calçadista ficou praticamente parado de março até o início da semana passada e espera retomar a produção aos patamares pré-crise nos próximos seis meses. Apesar da relevância das compras externas, a expectativa é que a retomada se dê, primeiramente, pela demanda do mercado doméstico e que os compradores internacionais voltem a fazer novos pedidos no último trimestre do ano.

Em 2019, a produção nacional foi de 908 milhões de pares e para 2020, a expectativa da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) é de uma queda em torno de 30%.

Em março (último dado disponível), mês parcialmente afetado pela quarentena, a produção de calçados no Ceará caiu 28,2%, enquanto a nacional recuou 29,7%. No primeiro trimestre deste ano, a indústria calçadista no Estado acumulou uma retração de 9,8% em comparação com os três primeiros meses de 2019, segundo dados da Abicalçados. Em abril, a produção nacional caiu 74,5%, número que deve refletir o cenário no Ceará, diz Haroldo Ferreira, presidente executivo da Abicalçados.

Segundo Jaime Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados de Fortaleza (Sindicalf), mesmo com o retorno parcial das atividades industriais no início deste mês, os elevados estoques de lojistas e da própria indústria devem fazer com que novos pedidos sejam postergados. “Os comerciantes estão estocados como se estivessem em fevereiro, nós também estamos estocados, a gente espera que essa retomada deva acontecer em até seis meses”, diz Bellicanta.

“Agora, com o varejo reabrindo, temos a expectativa de que a roda comece a girar novamente, mas não será uma recuperação imediata porque os lojistas estão com muito estoque”, diz Ferreira.

Empregos

Desde o agravamento da crise a indústria calçadista nacional já perdeu 35 mil postos de trabalho, o que corresponde a 13% da força de trabalho do setor (269 mil), segundo dados da Abicalçados. Deste total, 1.623 postos foram perdidos no Ceará.

Haroldo Ferreira, presidente executivo da Associação, ressalta o fato de a indústria calçadista cearense, segunda maior do País, ter se destacado pelo número relativamente menor de demissões, se comparado a outros estados, como o Rio Grande do Sul, maior produtor nacional. “As indústrias que estão no Ceará são de médio e grande portes e conseguiram passar pelo pior momento da crise com um número de desligamentos inferior a outros estados e com a abertura dos mercados interno e externo, há a possibilidade de a recuperação no Ceará ocorrer antes da nacional”, diz Ferreira.

“O Ceará, que é o segundo maior empregador nacional perdeu 1,6 mil postos de trabalho, enquanto o Rio Grande do Sul perdeu 10,3 mil”, compara. São Paulo (10,68 mil), Minas Gerais (5,48 mil) e Bahia (4,82 mil) ainda registraram mais perdas que o Estado, conforme dados da instituição. A Abicalçados prevê que o setor possa perder até 57 mil postos de trabalho até o fim de 2020. “Outro fator que contribuiu para a manutenção de empregos foi a MP 936, que trata da suspensão temporária do contrato de trabalho. As maiores empresas do Ceará utilizaram a MP. Então, o desemprego no Ceará ainda é muito pequeno”, diz Bellicanta.

“Nesses últimos 90 dias, as empresas anteciparam férias de quase dois anos, banco de horas. Então, esse pessoal está empregado, mas os próximos seis meses serão decisivos. Com certeza haverá desemprego, é uma situação ruim para todos nós, mas estamos muito esperançosos que, com essa retomada, o desemprego será o menor possível”.

Exportação

O Ceará, que tem nos Estados Unidos seu maior comprador de calçados, viu suas vendas para o mercado americano caírem 39,7% nos primeiros quatro meses deste ano, passando de US$ 27,2 milhões, de janeiro a abril de 2019, para US$ 16,4 milhões em igual período de 2020. E as vendas para a Argentina, segundo maior comprador, caíram 1%, passando para US$ 9,5 milhões.

“Se pegarmos o dado do Ceará só do mês de abril, a exportação caiu 60,6%, em volume de pares, e 70,6% em valor. Então essa a situação que se está enfrentando”, diz Haroldo Ferreira.

Segundo Bellicanta, do Sindicalf, é difícil saber quando as compras externas serão retomadas, uma vez que os mercados dos Estados Unidos e da Europa ainda estão muito retraídos. “Os pedidos externos são muito específicos e são produtos que nós não conseguimos colocar no mercado brasileiro. Então, essas compras devem acontecer a partir do último trimestre do ano”, estima ele.

O presidente da Abicalçados diz que além da ausência de novos pedidos externos, houve muitos cancelamentos dos que já haviam sido feitos antes da crise. “Levará mais tempo para que a gente receba pedidos do mercado externo. Mas, por outro lado, com essa aversão a produtos chineses tanto na Europa como nos Estados Unidos, poderá favorecer o Brasil no futuro. Além disso, o dólar alto deixa o produto brasileiro mais competitivo no exterior”, pondera.

Impacto simultâneo

Como fator agravante da atual situação, Haroldo Ferreira afirma que com a pandemia, diferentemente de outras crises que o setor calçadista enfrentou, os mercados interno e externo foram atingidos simultaneamente, reduzindo os pedidos de calçados a quase zero. Hoje, o mercado externo responde por 25% da demanda do setor calçadista brasileiro e o doméstico por 85%.

De acordo com dados elaborados pela Abicalçados, em abril, em maio, foram embarcados 2,7 milhões de pares, que geraram US$ 23,9 milhões, quedas tanto em volume (-64,7%) quanto em receita (-66%) em relação a igual mês de 2019.

No acumulado dos cinco primeiros meses de 2020, as exportações somaram 39,53 milhões de pares e US$ 294,9 milhões, quedas de 22,1% e 28,7%, respectivamente, ante igual período do ano passado. “Para 2020, acreditamos em uma queda de até 30,6% no volume de pares embarcados ao exterior”, estima Ferreira.

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