
É preciso diminuir a desigualdade não apenas para salvar a economia, mas porque nos importamos com as pessoas
Colocar “gente” no centro do debate, trazer as pessoas para a equação. Essa é a proposta de Eduardo Moreira, que abriu os debates do IX Conefaz, no dia 8 de novembro. Entrevistado pelo Fala Fisco, o empresário, escritor e apresentador do Instituto Conhecimento Liberta (ILC) compartilhou suas preocupações com os rumos do país.
Fala Fisco: Nós estamos aqui no Congresso dos Fazendários, que são servidores públicos, discutindo sobre reforma tributária, o futuro do trabalho, a revolução digital e também caminhos para um novo sindicalismo. Nesse contexto, quais seriam os desafios para a construção de um novo Brasil?
Eduardo Moreira: Temos muitos desafios porque partimos de um ponto de desigualdade e pobreza muito grandes. A desigualdade de renda é ainda muito grande no Brasil. Vamos lembrar que, mesmo depois de todos esses auxílios que passaram a existir depois da pandemia, para oferecer uma proteção social para boa parte da população que ficou sem emprego e desassistida, você ainda tem metade da população brasileira com uma renda média, por pessoa, de R$ 500. E com R$ 500 é muito difícil alguém conseguir viver com dignidade. A gente normalmente faz a conta: mas R$ 500 dá para comprar o pacote de macarrão, a salsicha. Em primeiro lugar, ninguém tem que viver de macarrão e salsicha. E, segundo, que as pessoas têm que se vestir, têm que se locomover, têm que estudar. As pessoas têm direito ao lazer, né? As pessoas têm direito a tentar exercer um ofício, descobrir uma nova habilidade. E como é que você faz isso? Fala-se em “vamos fazer o bolo crescer”. Tem muita gente que diz, mas não adianta nada o bolo crescer se as fatias não são distribuídas minimamente para todo mundo que está sentado à mesa. Mas, tudo bem, se vamos fazer isso, com quais instrumentos iremos distribuir? Será através de uma reforma tributária? Será através de investimentos públicos? Ou através de, enfim, políticas de transferência de renda?
Enfim, são muitas questões postas à mesa e num momento em que muita coisa está acontecendo no mundo. Viemos de uma pandemia, que é um evento histórico, pois o mundo parou em 2020. Não estamos falando de algo medieval, estamos falando de algo que aconteceu décadas depois de o homem ter pisado na lua, em que temos vários robôs sobre a superfície de Marte. Estamos falando de uma época em que nós mandamos um telescópio que consegue enxergar galáxias a mais de 10 bilhões de anos-luz de distância e, de repente, um “viruzinho”, uma coisa microscópica, parou o planeta inteiro. E vimos as capitais do mundo inteiro sem uma pessoa na rua porque não sabíamos o que fazer. E tivemos que nos readaptar.
Então saímos da pandemia e, de repente, temos uma inflação gigante. E aí os eventos climáticos começam a ficar mais extremos. Começamos a ver novas guerras, que envolvem potências nucleares como, por exemplo, a Rússia, Israel. Então estamos enfrentando um momento extremamente difícil no meio de uma revolução tecnológica, onde a inteligência artificial surge, talvez para muitos, como uma boia de salvação; mas, para muitos outros, talvez, um novo perigo, tão grande como uma bomba nuclear. Então é um período de muita incerteza e, em tempos como este, nós deveríamos estar mais juntos, ser mais solidários, ser mais colaborativos.
E a pergunta que eu faço é a seguinte: é nesse caminho que nós estamos rumando, de mais solidariedade, de mais cooperação, de mais colaboração, ou será que não?
Então são realmente muitos desafios e o Brasil está inserido no meio de toda essa confusão, numa situação que não é fácil, porque viemos de um modelo de governo extremamente autoritário, censor, voltado para os grandes grupos, para as pessoas mais ricas, e entramos em um novo governo com discurso de que quer, enfim, viver num ambiente mais democrático, numa economia que partilha mais os recursos do país, mas precisa de um apoio político, de um apoio no Congresso, que ele não tem. Nós temos um Congresso mais conservador do que o Congresso do presidente anterior. Então tudo isso é para dizer que o que não nos falta são desafios.
Fala Fisco: Em meio aos debates sobre reforma tributária, aumento da arrecadação e controle de gastos, destacamos a sua análise de que o combate à pobreza e às desigualdades tem impacto positivo na economia. Como é essa relação?
Eduardo Moreira: Primeiro, eu gosto muito de falar uma coisa que é a seguinte: nós temos que diminuir a desigualdade, sim, mas não é para salvar a economia; se nós diminuirmos, salvamos a economia, mas precisamos reduzir a desigualdade porque temos que nos importar com os outros. Precisamos colocar as pessoas na frente da equação, temos que largar a ideia de que o mundo é uma planilha de Excel e lembrar que o mundo é formado por pessoas. O Excel foi inventado por pessoas, os números foram inventados por pessoas, no final das contas só existem pessoas.
Então, essa é a minha principal preocupação: vamos diminuir a desigualdade porque é injusto, porque com a desigualdade mais gente sofre, porque se a desigualdade for muito grande não tem como distribuir o bolo para todo mundo na mesa comer. Então essa é a grande preocupação que eu tenho.
Entramos na conta matemática e vemos que, se a gente não diminuir bem a desigualdade, o que produzimos de riqueza no mundo não dá para todos. E a ideia de produzir ainda mais não resolve, pois o planeta não consegue prover. Enfim, tanto o plástico que usamos, como o combustível fóssil, a soja, o trigo, vamos fazer o quê? Produzir dez vezes mais? E aí termina de desmatar todas as florestas? Termina de poluir todos os oceanos? Termina de extinguir todas as espécies? E isto para, de repente, chegarmos à conclusão de que seguimos o caminho errado? Ou tentamos descobrir que estamos no caminho errado agora? Então essa que é a questão crucial.









