Crédito, endividamento e inadimplência da pessoa física em alta no Ceará

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O que esses indicadores sinalizam para a economia do País e do Estado daqui para frente

Impacto da crise do novo coronavirus
Impacto da crise do novo coronavirus

Nos primeiros quatro meses deste ano, o volume de crédito concedido para pessoas físicas no Brasil ultrapassou a marca dos R$ 664,5 milhões. São quase R$ 26 milhões a mais do que em igual período do ano passado. Dados do Banco Central mostram, no entanto, que o endividamento das famílias em relação à renda acumulada nos últimos doze meses já chega a 45,9% e a inadimplência com o Sistema Financeiro, em abril, ficou em 4,9%.

Para se ter uma ideia, o avanço da inadimplência é 2,54% maior do que o registrado em março e quase 20% em relação a igual mês de 2019.

Qual o impacto disso para economia daqui para frente? Na avaliação do professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador em Finanças Comportamentais, Érico Veras Marques, o cenário que se desenha é bastante nebuloso.

O efeito mais notório é que as pessoas vão ficar ainda mais pobres e endividadas e, consequentemente, haverá, nos próximos meses, maior retração do consumo. “O processo de perda de renda e desemprego já começou e deve continuar até que as empresas consigam se restabelecer. Agora quanto tempo levará isso? Vai depender muito se vamos ficar nesta primeira onda de Covid-19 ou se teremos uma segunda onda de contágio que nos obrigará a fechar tudo de novo e recomeçar”.

Ele reforça que quanto maior a deterioração da renda, maior a dificuldade das pessoas de arcar com os compromissos financeiros assumidos. E a inadimplência é um dos principais fatores considerados pelos bancos para estabelecer as condições para oferta do crédito. Ou seja, ficará mais difícil e mais caro conseguir aquele socorro para emergência.

No Ceará é preciso considerar que, mesmo antes da pandemia, o nível de endividamento bancário das famílias já vinha crescendo acima da média nacional.

O saldo das operações de crédito para pessoas físicas no Estado, por exemplo, totalizou mais de R$ 47,1 milhões em dezembro de 2019, segundo dados do Relatório de Economia Bancária divulgado nesta semana pelo Banco Central. Alta de 14,4% em relação ao que se tinha no ano anterior, e no País foi de 11,2%.

 a inadimplência nas operações de crédito no Estado saltou de 3,9%, em 2018, para 4,2%, no ano passado. No Brasil, esse índice variou de 3,3% para 3,5%.

O Estado também possui a quinta maior taxa de informalidade do País, com 54,9% dos trabalhadores sem carteira assinada, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O que deixa esta parcela da população ainda mais vulnerável em momentos de incerteza econômica.

A vice-presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-CE), Silvana Parente, acrescenta que apesar de aportes feitos pelo Governo Federal para aumentar a liquidez dos bancos e, consequentemente, a oferta de crédito, na prática, as medidas anunciadas para socorrer as famílias endividadas foram muito tímidas ante a necessidade. Mais até do que aquelas oferecidas às empresas. “Foi anunciado pausa no contratos de empréstimos por até três meses por alguns bancos e a possibilidade de renegociação. Mas, na prática, nem todo mundo consegue prolongar a dívida”.

O coordenador do Instituto de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Márcio Jolhben Wu, pondera, que as pessoas também estão gastando menos neste período. E é possível que a mudança nos hábitos de consumo provoque uma reestruturação do orçamento, com priorização de gastos.

“Durante a pandemia, as pessoas foram obrigadas a gastar menos, seja porque perderam renda ou por conta das próprias medidas sanitárias. O shopping fechou, as pessoas deixaram de ir ao cinema, viajar, passaram a cozinhar mais em casa e isso levou a uma nova conformação de hábitos. Acabando a pandemia, é possível que muitos destes hábitos continuem e haja uma reflexão sobre a qualidade do gasto”.

Ele pondera que como a inflação está muito relacionada ao consumo e oferta de serviços, e estes estão em queda, é provável que ao longo de 2020 também não ocorra muita pressão sobre este indicador. O que pode trazer certo alívio aos preços dos produtos.

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