Com pandemia, inflação na RMF em maio é a menor em 21 anos

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Drástica redução da atividade econômica motivou a deflação, que é a segunda maior desde o início do monitoramento do IBGE, em 1989. Com reabertura gradual, tendência é que índice se estabilize, mas sem altas expressivas

Consequência direta da pandemia do novo coronavírus, a economia brasileira mergulha em nova recessão após medidas de isolamento social para frear o avanço Covid-19. Na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), o cenário refletiu na maior queda real de preços – a chamada de deflação – dos últimos 21 anos.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial no Brasil, foi de -0,52% em maio na RMF. O resultado é a segunda maior queda desde o início do monitoramento, em julho de 1989, ficando atrás apenas de setembro de 1998, quando foi registrada deflação de 0,66%.

Membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Ricardo Eleutério explica que deflações estão associadas com recessões econômicas, assim como o crescimento mais acelerado vem acompanhado da inflação. “Estamos com uma queda do nível de atividade econômica acentuada. É um processo recessivo observado no mundo, no Brasil e no Ceará. O IPCA acompanha o movimento dos preços livres, que são guiados pela oferta e demanda. A demanda caiu extraordinariamente com o isolamento social, com o desemprego elevado, com a queda de renda”.

Despesas

Entre os grupos de despesas monitorados pelo IBGE, o de transportes, sob influência dos preços de passagens aéreas (-26,88%) e da gasolina (-6,41%), foi quem puxou o índice para baixo, com variação negativa de 2,41%. Ainda contribuíram para o resultado queda dos preços da habitação (-1,45%), vestuário (-0,34%), despesas pessoais e comunicação (ambos com -0,06%) e educação (-0,02%).

“Temos, principalmente, os setores de comércio e serviços fortemente impactados pela pandemia, que correspondem a cerca de dois terços do PIB (Produto Interno Bruto) do Ceará. Temos o segundo mês seguido de deflação, que traduz que essa recessão será bastante acentuada”, afirma Eleutério.

No sentido contrário, ainda registraram aumento de preços os segmentos de alimentação e bebidas (0,72%), artigos de residência (0,37%) e saúde e cuidados pessoais (0,09%), todos englobando despesas consideradas essenciais, como alimentos, utensílios de casa e remédios.

“Há uma manutenção do comportamento de alimentos e bebidas. O índice desse grupo continua com variação positiva, ou seja, com inflação. Por ser um setor essencial, a demanda se manteve a ponto de pressionar os preços”, avalia o membro do Corecon-CE.

Para o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL), Freitas Cordeiro, a deflação foi uma surpresa. Tendo em vista a lei da oferta e procura, ele esperava que a restrição ao funcionamento das atividades econômicas prejudicasse a oferta, elevando os valores. “É surpreendente. A indústria parada e a demanda não superou a capacidade de entrega. O desastre acontece quando não temos como atender o consumidor”, pontua.

Segundo ele, a deflação é positiva por preservar o poder de compra dos consumidores. “Não que estagnar seja bom. Estamos em uma recessão. Mas o cenário preserva o salário dos trabalhadores, o consumidor. Agora, é torcer para que nós possamos continuar respondendo a demanda”, afirma Cordeiro, destacando a possibilidade de que, com a reabertura da economia, o cenário se reverta a um pico de inflação.

“O medo é a capacidade de produção não ser restabelecida juntamente com a demanda. Todo mundo está retornando, mas tem indústria que pode não responder”, diz.

Responsável por uma das baixas nos preços na RMF em maio, a gasolina e outros derivados do petróleo não devem retomar patamares próximos aos do início do ano. O assessor de economia do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Estado do Ceará (Sindipostos-CE), Antonio José Costa, esclarece que a queda de preços não foi causada pela pandemia do novo coronavírus, e sim pelo comportamento do mercado internacional do petróleo.

Ele lembra que, nos três primeiros meses do ano, houve uma sucessão de quedas no valor do barril de petróleo, fator que interfere diretamente no preço final de combustíveis como a gasolina. “Em abril, isso começou a ser revertido. Já tivemos quatro ou cinco altas no valor do barril”.

Já entre os alimentos e bebidas, a crescente demanda durante a pandemia não é a única explicação para o grupo permanecer com alta de preços. Nidovando Pinheiro, vice-presidente da Associação Cearense de Supermercados (Acesu), destaca que itens como arroz, feijão carioca, açúcar, farinhas de mandioca e de milho e óleos em geral sofreram reajustes consideráveis.

“Também observamos aumento em algumas frutas e legumes, como o tomate e a batata-inglesa, devido aos níveis de colheita”, ressalta.

Retomada

Mesmo com o início da reabertura gradual da economia no Estado, o conselheiro do Corecon-CE, Ricardo Eleutério, projeta que o cenário é de inflação muito baixa para o ano de 2020. No acumulado de janeiro a maio, a RMF registra índice de 0,64%. “O Focus (pesquisa semanal do Banco Central) já prevê inflação abaixo de 1,5% esse ano. O Banco Mundial estima queda no PIB do Brasil de 8%. Devemos voltar a ter variação positiva nos próximos meses, mas muito pequenas”, avalia.

O economista Alex Araújo ainda pondera que a retomada economia do Ceará e de outros estados do Nordeste deva ser mais lenta que em outras regiões do Brasil. “A economia geralmente é avaliada na perspectiva de quatro aspectos: consumo das famílias, consumo do governo, investimentos e mercado externo. O Ceará é muito dependente dos três primeiros”, explica.

“Como resultado dessa crise e situação fiscal em que o País já se encontrava, o consumo do governo e os investimentos devem ficar depreciados, preponderando o consumo das famílias”. Ele ainda alerta que, dependendo do impacto da pandemia no mercado de trabalho e nos níveis de renda das famílias, o retorno deverá ficar ainda mais comprometido que o previsto.

“Os preços tendem a voltar ao patamar anterior com a reabertura, mas a inflação deve se acomodar, o que termina por ser positivo, pois permitirá que o Banco Central permaneça com as taxas de juros baixas. Isso é importante para as família e empresas, pois o uso de crédito importante na retomada. Juros mais baixos significa um crédito barato, o que facilita o acesso”.

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