Com alta de preços de alimentos, inflação em Fortaleza em 2020 é a maior do Nordeste

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Escalada do dólar e avanço das exportações durante a pandemia elevaram os preços de produtos como óleo de soja, arroz e feijão. Em 2021, índice deve pressionar orçamento das famílias pelo menos até o fim do primeiro semestre

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Legenda: Durante a pandemia, o quilo do arroz bateu os R$ 10 nos supermercados de Fortaleza

Impulsionada pela alta nos preços dos alimentos ao longo de 2020 em meio aos efeitos da pandemia, a inflação de Fortaleza medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou o ano de 2020 com uma alta de 5,74%, a maior desde 2016 (quando encerrou 8,34%) e a mais alta da região Nordeste. Considerando apenas o grupo de alimentos e bebidas, o aumento foi de 16,14% no ano em relação a 2019, com destaque para os preços do óleo de soja, do arroz e do feijão.

De acordo com os dados divulgados ontem (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço do óleo de soja avançou 121,3% no ano. O arroz teve alta de 82,7% e o feijão macassar subiu 81,4%. O economista Alex Araújo lembra que esses produtos, considerados essenciais na mesa do brasileiro, ganharam força nas exportações durante a pandemia em decorrência da falta de alimentos em algumas partes do mundo e da alta do dólar, que favoreceu as vendas ao exterior, principalmente de arroz e soja, além da carne.

“Uma parte dessa alta está ligada ao deslocamento da oferta, e a outra parte corresponde aos efeitos secundários da pandemia, como aumento da exportação de produtos a exemplo do arroz, do leite e de alimentos derivados da soja. Tivemos uma escalada do dólar no ano passado, com o real se desvalorizando muito, e isso encareceu uma série de produtos”, detalha.

Apesar de Fortaleza ter experimentado inflações bem mais expressivas em um passado não tão distante, Alex Araújo vê o resultado de 2020 como preocupante, já que o ano passado foi de “recessão brutal”. “Em um ambiente de recessão, é natural que os preços caiam. Essa inflação alta no Brasil descola do restante do mundo e traz uma grande preocupação, porque mesmo em uma recessão houve um aumento do custo de vida em Fortaleza e no Brasil”, pontua Araújo.

O economista e presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE) Ricardo Coimbra destaca que a inflação de Fortaleza veio acima do que era esperado e reforça que o crescimento das exportações foi um dos principais fatores que contribuíram para a pressão dos alimentos sobre o índice.

Coimbra reforça que o crescimento da demanda por produtos alimentícios também no mercado interno com o pagamento do auxílio emergencial contribuiu para a alta nos preços dos alimentos em Fortaleza e no restante do País. “Passou a ter uma parcela significativa de pessoas com o auxílio emergencial. E uma parte significativa do auxílio emergencial foi direcionada para o consumo de alimentos, então, tivemos a combinação de queda na oferta de alimentos com crescimento de demanda”, aponta.

Além disso, o economista ainda destaca que a escalada do câmbio dificultou a importação de alguns alimentos, o que contribuiu ainda mais para uma oferta escassa. “Os derivados de trigo que nós processamos aqui ficaram mais caros e, consequentemente, os preços de pães, massas e biscoitos, todos esses derivados, sofrem o impacto. Parte daquilo que consumimos vem do mercado externo e essa elevação fez com que esse produto entrasse no País custando mais caro”, diz.

No mês de dezembro, a inflação de Fortaleza apresentou alta de 1,46%. No período, o destaque ficou por conta dos avanços observados nos grupos Educação (3,75%) e Habitação (3,31%). Dentro do grupo, o item “Revestimento de piso e parede” ajudou a impulsionar o resultado, com variação de 3,97%. Os alimentos apresentaram variação de 0,97% no último mês do ano.

Mais pobres

O economista Alex Araújo lembra que em cenários de alta inflação dos alimentos, os mais pobres sofrem mais os impactos, já que uma fatia maior da renda dessa camada da população é direcionada à garantia de alimentação. De acordo com o IBGE, enquanto a inflação geral medida pelo IPCA em Fortaleza no ano de 2020 ficou em 5,74%, o índice que mede a inflação para quem ganha até cinco salários mínimos encerrou em 6,32%.

Com o atual contexto econômico, Araújo prevê que a inflação deve continuar subindo até o fim do primeiro semestre deste ano. “É possível que em meados de junho a inflação acumulada chegue a 8% e comece a cair no segundo semestre”, avalia.

Ele destaca, entretanto, que a pressão oriunda dos alimentos ainda é uma incógnita. “Fortaleza depende muito da oferta local, então o regime de chuvas influencia bastante. Por isso não dá para ter tanta certeza”, explica.

Outro fator que vai influenciar a inflação de 2021, segundo o economista, é o descolamento do IPCA dos índices gerais de preços. “Temos preços que estão acumulados no atacado e que devem ser repassados ao consumidor final agora no ano de 2021”.

Araújo acrescenta às expectativas para este ano a incerteza em torno do mercado de trabalho, já que, se a população estiver desempregada e sem renda, preços de produtos como vestuário, móveis e eletroeletrônicos devem se acomodar. “O cenário permanece em alerta”.

Já Ricardo Coimbra espera que em 2021 haja um alívio para o bolso do fortalezense oriundo dos alimentos. Ele sustenta a expectativa nas previsões mais otimistas para a safra de grãos deste ano no Estado e lembra que, com o fim do auxílio emergencial, a pressão da demanda diminui.

“Não terá mais a pressão forte de demanda decorrente do auxílio emergencial, então haverá um pouco de crescimento de oferta e redução de demanda. É provável que tenhamos um equilíbrio dos preços ou até queda em alguns produtos alimentares, gerando um direcionamento para um índice inflacionário um pouco mais baixo para 2021”.

Brasil

No País, a inflação fechou o ano de 2020 em 4,52%. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é a maior alta desde 2016, quando ficou em 6,29%. O índice do ano ficou acima do centro da meta, definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que era de 4,0%, mas, ainda assim, permanece dentro da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para baixo (2,5%) ou para cima (5,5%).

Diário do Nordeste

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