Artigo: “Programa permanente de cidadania ecológica”, por Luiz Carlos Diógenes

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Um antropocentrismo milenar, acentuado nos períodos de otimismo humano, ofuscou o ecocentrismo da teia da vida, na qual o ser humano, embora criador, também é criatura, fragmento da Natureza. Falar de cidadania ecológica pode ser um luxo para muitos, sobretudo os excluídos que se alimentam do lixo de poucos, na mesma casa comum planetária. Privilegiados cidadãos que gozam dos plenos direitos humanos não escapam, todavia, do tribunal da Natureza, com sua sentença irretorquível de justiça ecológica: não passam de pó, por baixo das vestimentas luzidias.

Quem olha fundo a existência enxerga muito da essência. O realismo psicológico de Machado de Assis sugere uma incursão no realismo ecossistêmico, na verdade do todo, do qual o ser humano é parte. Dedica seu clássico “Memórias póstumas de Brás Cubas” ao ser vivo que se costuma comparar para ofender desafetos: “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver…” No plano funcional de utilidade ecossistêmica, um verme pode valer mais que um parasita humano.

O Nobel de Química Ilya Prigogine fundamenta cientificamente o bruxo literário, em “O fim das certezas”: “Compreender a natureza foi um dos grandes projetos do pensamento ocidental. Ele não deve ser identificado com o de controlar a natureza. Seria cego o senhor que acreditasse compreender seus escravos sob o pretexto de que eles obedecem às suas ordens”.

No antropocentismo hegemônico, o homem, jamais a mulher, continua sendo a medida de todas as coisas. Os cientistas biólogos Humberto Maturana e Francisco Varela, no livro “A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana”, descem à raiz da crise socioambiental criada pelo, tão pretensioso quanto ignorante, escravocrata dono do mundo: “Não é o conhecimento, mas sim o conhecimento do conhecimento que cria o comprometimento”.

A Fundação Sintaf, entidade fazendária cearense que atua em ensino e pesquisa, quer conhecer, para além da justiça fiscal, da transparência das contas públicas, quer saber dos fundamentos do desenvolvimento sustentável, comprometendo-se com a cidadania ecológica em programa estatal permanente, contribuindo na sementeira de um planeta melhor, por dentro e por fora.

* Luiz Carlos Diógenes é coordenador regional adjunto do Sintaf na região do Cariri

Fonte: O Povo

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