Artigo | “Do feminismo xiquexique ao feminismo negro”, por Luís Carlos Diógenes

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Duas mulheres destemidas, distando quase duzentos anos uma da outra, enfrentando dois impérios e suas soberbas sentenças sumárias. Bárbara de Alencar e Ângela Davis livraram-se por pouco: uma, da forca; a outra, da cadeira elétrica. A luta contra a opressão tirânica já seria suficiente para aproximá-las. Longe do discurso falacioso contra o jugo imperial, deram a alma por ideal utópico de emancipação. Não bastando, ofereceram o corpo à imolação. Feminismo não só da resistência, mas do desassombro ao enfrentamento do combate, com a consciência austera de que a causa vale o combate e a vida é o combate.

Na quadra da independência do Brasil de Portugal, numa sociedade patriarcal que vetava à mulher discutir política, Bárbara não só entrou na Revolução, mas levou sua família e patrimônio para o centro da briga. Cometeu crime de lesa-majestade. Só em 2014 subiu ao panteão dos heróis nacionais. Mas, ao feminismo importa que Bárbara rompeu com a moral do patriarcado caririense ainda no final do século XVIII.

Senão, como qualificar sua conduta ao questionar o padrão de matrimônio familiar, casando-se com alguém quase três décadas mais velho que ela? Ao gerir fazendas, apresentando-se como administradora de negócios? Ao contratar um mestre de Recife para levantar a primeira casa de beira-e-bica do Crato, revelando-se mulher de vontade própria, uma esteta? A heroína percebeu que a luta feminista é multifacetada?

A intelectual ativista norte-americana Ângela atualiza Bárbara, pela luta contra toda opressão de ”imperadores” na resiliente estrutura do patriarcado escravocrata imperial. Que feminismo, para qual sociedade e mundo? É inelutável: o 8 de Março, bem comportado, incensado pelos direitos de igualdade de gênero, mas desenraizado da vida das pessoas, da sociedade e da natureza, não é conjugável com o ”esperançar”. A práxis feminista recupera a esperança da consciência crítica e da cova funda para um patriarcado que não se deixa sepultar.

Fonte: O Povo

2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns Luís Carlos pela lembrança dessa grande heroína. É considerada a primeira prisioneira política do Brasil. Vale lembrar que ela é Avó do escritor José de Alencar.

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