Alta de commodities pode impulsionar economia, mas dólar e desequilíbrio fiscal são obstáculos

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Especialistas avaliam que o cenário econômico nacional e a taxa de câmbio podem reduzir o possível impacto de um novo ciclo de valorização das commodities

Desde o começo da pandemia, o preço das 19 principais commodities no mercado mundial acumulou alta de cerca de 40% segundo o índice Commodity Research Bureau (CRB). E o Brasil, por ter uma balança comercial fortemente influenciada pelo comportamento das matérias-primas, tem a chance de impulsionar a economia com as exportações. Contudo, especialistas avaliam que o cenário econômico nacional e a taxa de câmbio podem reduzir o possível impacto de um novo ciclo das commodities.

Nas bolsas de valores internacionais, as cotações de várias das matérias-primas têm apresentado tendências de valorização. Nos Estados Unidos, a soja, por exemplo, acumula alta de 55,11% nos últimos 12 meses. Nas bolsas do Reino Unido, o preço do petróleo brent teve uma evolução de 182,52% no último ano.

FENÔMENO VEIO PARA FICAR?

Contudo, segundo o economista Alex Araújo, ainda é preciso aguardar para observar se esse movimento se consolidará nos próximos meses, confirmando um novo boom dos preços das commodities, que foi responsável por parte dos resultados positivos da economia brasileira no início do século.

Araújo explicou que uma das razões que tem colaborado para a alta dos preços dos insumos básicos é o ajuste de vários países para reforçar estoques durante a pandemia, já que a crise gerou muitas barreiras de movimentação de produtos e pessoas. Para evitar prejuízos na produção interna por falta de matéria-prima, o economista destacou que muitos governos pelo mundo tem reforçado a compra desses produtos.

Com essa alta da demanda, o preço de muitos desses itens acompanhou a tendência de alta. Outros fatores menores também impactaram a dinâmica do mercado internacional, como o bloqueio do canal de Suez e o inverno nos Estados Unidos – período em que a produção de petróleo na América do Norte é reduzida.

Por conta disso, Araújo explicou que ainda é cedo para saber se o Brasil deverá sentir o mesmo impacto em relação a ciclos passados, já que os preços poderão se equilibrar a partir do segundo semestre – quando alguns países já terão um fluxo econômico sem tantas barreiras por conta do avanço da vacinação contra a covid-19.

DIFERENÇAS CAMBIAIS

O economista ainda ponderou que o Brasil, caso o novo “boom das commodities” se confirme, pode ter impactos reduzidos por conta da desvalorização do real.

Como boa parte dos insumos comprados pelo setor produtivo brasileiro vem pelas importações, parte dos ganhos pela exportação das matérias-primas pode ser cortado se a moeda norte-americana continuar em um patamar elevado.

“Ainda precisamos ter a confirmação se estamos vivendo um novo ciclo ou se isso é uma repercussão da pandemia. Houve uma demanda crescente para reforçar estoques e a questão logística global faz com que haja muita especulação. Ainda é cedo para dizer se vivermos um novo ciclo. Mas no Brasil, é importante focar nas exportações de minério e da agricultura que podem ter resultados impulsionados. Mas ainda temos uma dependência muito grande do petróleo no Brasil, além de termos a indexação de preços de vários produtos em dólar”, disse.

AVANÇOS TECNOLÓGICOS

A opinião é corroborada pelo economista e consultor internacional Alcântara Macedo, que projetou um fluxo estável das exportações do Brasil nos setores de mineração e do agronegócio. Ele, contudo, afirmou que o Governo Federal precisa projetar mecanismos para garantir que os retornos financeiros para a balança comercial com as exportações sejam revertidos em empregos e renda no mercado local.

O Brasil poderia reforçar mecanismos para aumentar o valor agregado dos produtos exportados ao mercado internacional, defende ele. A medida poderia fazer com que a balança comercial nacional não fosse dependente apenas dos fluxos de preço das commodities.

“O conteúdo principal das exportações brasileiras são as commodities, aço, ferro, soja, então qualquer alteração de preços mexe na reserva cambial Brasileira, que está robusta, como nunca o Brasil teve. As commodities podem, sim, afetar o Brasil porque exportamos muito. É bem verdade que o Brasil precisa fazer um política para melhorar a tecnologia e produtividade do setor do agronegócio para vender produtos manufaturados, que têm um valor agregado”.

ALCÂNTARA MACEDO
Economista e consultor internacional

AJUSTES FISCAIS

Contudo, para Alex Araújo, o Brasil precisará também focar esforços em ajustes para tentar controlar a taxa de câmbio e tentar reter de forma mais eficiente os recursos estrangeiros no mercado interno.

Ele comentou que o cenário fiscal instável, com uma dívida que chegou ao patamar de 90% do Produto Interno Bruto (PIB) do País é um dos fatores que podem pressionar a desvalorização do real, e, consequentemente, reduzir os impactos positivos na balança comercial pela exportação das commodities.

“Esse desequilíbrio do dólar tem a ver com a situação fiscal. Apesar da pandemia, poderíamos ter avançado na discussão de algumas reformas, como a tributária e fiscal. A nossa fragilidade fiscal ajuda muito a saída de recursos do Brasil. Além disso, fluxo de vencimento da dívida em 5 anos é muito grande. O presidente do Banco Central afirmou que os aumentos dos juros iniciais tendem a gerar impactos no longo prazo, o que demonstra que o BC está preparado para atuar em relação a isso, mas a nossa questão é fiscal e precisa ser resolvida para não minar uma possível alta de commodities”, disse o economista.

IMPACTOS REGIONAIS

Araújo ainda comentou que o Governo Federal precisa rever algumas questões da política de relações exteriores para evitar possíveis acordos comerciais na venda de commodities. Ele ponderou, contudo, que os principais produtos agrícolas brasileiros não serão impactados pela fragilidade do Brasil no mercado internacional porque a China, maior comprador desses insumos, não deverá reduzir o nível de consumo.

Já a gestão da pandemia e questões relacionadas ao meio ambiente podem afetar as relações do Brasil com os Estados Unidos e Europa com relação a produtos semi-processados.

“Nosso principal parceiro é a China, que está longe de colocar entraves para as importações, mas podemos ter impactos com EUA e Europa. Podemos ter impactos nos semi-processados e outros produtos, como o camarão. Mas em relação aos outros produtos, há uma dependência mundial em relação à produção brasileira de commodities. Mas podemos ter uma queda dos preços das commodities no segundo semestre, quando as cadeias estiverem recompostas, e isso pode reduzir ganhos”.

ALEX ARAÚJO
Economista

Alcântara Macedo também afirmou que o Brasil precisa melhorar as relações com países do Mercosul para garantir um bom fluxo dos produtos brasileiros.

“Esse componente do Brasil estar bem nas relações externas pode, sim, atrapalhar, mas o mais importante é termos produtos de qualidade e com tecnologia. Agora, se não tivermos uma performance na política internacional com estabilidade de governo e uma visão melhorada para o meio ambiente, pode ser prejudicial e podem pesar na avaliação do mercado internacional. Temos de melhorar nossas relações com o Mercosul e procurar fazer parcerias com quem quiser fazer parceria. Não devemos ter ideologia ou espiritualidade na hora de vender nossos produtos”, afirmou.

Diário do Nordeste

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