
Em palestra bem-humorada, Dado Schneider fala sobre as diferenças entre gerações e a importância de compreender o mundo de hoje
“A revolução digital chegou: e eu com isso?” foi o tema do segundo painel do IX Conefaz, que contou com palestra do professor doutor Dado Schneider, especialista em mudança, adaptação e colaboração intergeracional. O painel foi mediado pelo diretor para Assuntos Funcionais e Jurídicos do Sintaf, Mauro Bastos.
Ao apresentar o tema da palestra, Mauro Bastos evidenciou que a Secretaria da Fazenda do Ceará (Sefaz) não realiza concurso público com frequência, o que resultou em diversas gerações convivendo na Instituição. “Meu concurso foi em 1989. Hoje tenho colegas que não eram nascidos quando eu ingressei na Sefaz. Naquela época, nós trabalhávamos com caneta, papel e máquina de datilografar. Hoje os servidores resolvem os problemas na palma da mão. Eu tive que me adaptar, mas para algumas pessoas é difícil”, sublinhou.
“A palestra não é motivacional, é sobre mudança. O problema não é ser velho, é ser ultrapassado”, provocou Dado Schneider, logo no início. Mestre e doutor em comunicação pela PUC-RS, ele trabalhou em grandes agências de marketing – foi o criador da marca Claro, além de consultor de empresas e professor de várias universidades. Há mais de 20 anos desenvolve pesquisas sobre as novas gerações, o que o tornou um dos palestrantes mais requisitados do país.
De forma bem-humorada, o professor falou sobre mudanças na linguagem, comunicação e autoridade, considerando as diferentes gerações. A geração X (nascidos entre 1965-1980) é conhecida por sua independência e foi marcada pela luta por liberdade e direitos; a geração Y ou Millenials (1981 a 1999) viram a tecnologia nascer e testemunharam as maiores transformações mundiais; e a geração Z (nascidos a partir dos anos 2000) possuem uma forte responsabilidade social, mas sofrem um pouco mais quando o assunto é relacionamento interpessoal.
“No século XX, a comunicação era vertical. Nos anos 60 e 70, três gerações viam a mesma informação e discutiam sobre ela. Hoje, cada um vai assistir a um conteúdo que é só seu. Perdemos a troca de informações. Nosso grande problema hoje é linguagem. Até vídeo para recrutamento militar usa cenas de games. Não dá para usar a mesma linguagem do século passado”, destacou o palestrante.
No passado, a autoridade era centrada nos superiores, tanto nos ambientes escolar e profissional, como em casa. O aprendizado vinha dos mais velhos, que eram a principal fonte de informação. “Existiam poucas fontes de informação, por isso elas eram controláveis. No século XX, jovem era jovem, aberto ao novo, e velho era velho, resistente à mudança. Nós nos diferenciávamos pela idade. Aí veio a internet e trouxe infinitas novas fontes de informação, em geral muito mais interessantes e divertidas do que aprender com aqueles velhos chatos”, brincou.
Conforme destacou o professor Dado Scheider, a agenda do século XX, centrada em um certo autoritarismo do “manda quem pode, obedece quem tem juízo e quem precisa” foi completamente alterada pelas novas gerações. “Qual a agenda do século XXI? Sustentabilidade, inclusão, diversidade, colaboração, compartilhamento, cooperação. E não estou colocando nenhuma pitada político-partidária aqui. É uma nova agenda. Converse com um jovem de 15, 17 anos; eles só falam nisso. A geração Z não sonha como vivíamos no século XX e nem quer saber”, disse. “A pandemia tirou o século XX de cima. Tudo o que tem cara, cheiro, jeito, processo, lentidão de resposta e de entrega, estrutura e mentalidade com cara de século XX, ficou velho abruptamente”, completou.
Segundo Schneider, os servidores não correm o risco de serem trocados pela Inteligência Artificial (IA), mas por alguém que lide melhor com ela. “A internet, quando surgiu, parecia ser um bicho de sete cabeças. Hoje, de posse de um celular você tem acesso a qualquer coisa da IA de graça. O impacto não é pequeno”, alertou.
O professor reforçou que hoje, com a internet, não há nada que não se aprenda sozinho, de graça. “Ponha no Google ‘quais são os dez programas de inteligência artificial que eu preciso conhecer’. Ele vai dar o tutorial e você vai aprender sozinho. Porque ‘velho jovem’ é aquele que não depende digitalmente de ninguém”.
Para o professor Dado Schneider, o mundo parece complicado porque estamos vivendo duas eras simultaneamente. “Nós não estamos mais no século XX, mas com ‘um pé e meio’ no século XXI. Estamos vivendo uma era paradoxal, dualista, ambígua”, refletiu. “Mudar não é necessariamente gostar de tudo o que está acontecendo, mas abrir a cabeça para tentar compreender. Mudar é entender para aceitar”.









